Conquistando o investidor: por que você não deve falar de lucro

Nunca fale de lucro e retorno ao investir em startups ao mesmo tempo
Créditos: Sharon McCutcheon | Unsplash

Retorno ao investir em startups

Existem muitas razões diferentes para se investir em startups, e retorno financeiro, sem sombra de dúvida, é o mais comum. Mas, mesmo quem busca esse tipo de retorno ao investir em startups, pode fazê-lo de formas diferentes.

Dentre as formas de retorno financeiro, a venda das ações ou quotas, adquiridas por um valor expressivamente maior, é a mais comum e também a mais desejada. Geralmente, a venda completa da empresa, na qual todos os sócios vendem suas ações, é a maneira mais frequente de encerrar o ciclo de investimento.

Mas o que pensam os investidores sobre distribuição de lucro?

Significado de lucro

Lucro pode ser um conceito amplo. As pessoas geralmente se referem a lucro em toda operação financeira que sobre dinheiro no final. Não deixa de ser verdade. A venda da empresa gera um tipo de lucro, à medida que se retornou mais dinheiro do que foi investido.

Mas aqui estou me referindo ao lucro contábil que, por definição, é o resultado das receitas menos os impostos, as despesas e os custos — inclusive o custo do uso de ativos como equipamentos e veículos. O lucro é apurado na base mensal ou anual através da DRE – Demonstração de Resultados do Exercício.

Geração de lucro e caixa

É importante ressaltar que geração de lucro é diferente de geração de caixa. Existem duas contas principais que fazem com que esses indicadores se diferenciem.

A primeira é o investimento em ativos como máquinas, equipamentos, veículos e até pesquisa e desenvolvimento, que são debitados do lucro contábil na forma da famosa depreciação. Esse processo pode demorar muito anos, até 10 dependendo do ativo. Já em relação ao caixa, a empresa pode desembolsar o pagamento do ativo já no primeiro ano de uso. Um descasamento muito relevante.

A segunda é sobre o capital de giro, que é basicamente a diferença entre o prazo de pagamento de fornecedores e o recebimento de clientes. Quanto maior o prazo de pagamento de fornecedores e menor o prazo de recebimento de clientes, melhor para empresa. O contrário também é verdadeiro. O detalhe aqui é que nada disso impacta no lucro. Mesmo recebendo do cliente em 12 vezes, a empresa emitiu a nota fiscal, pagou os impostos e apropriou os custos no mês da produção do produto ou na sua entrega, dependendo do modelo de negócios.

O que representa o lucro para uma empresa de alto crescimento?

De maneira geral, o lucro contábil não significa muita coisa para uma startup ou uma empresa de alto crescimento. Ele é um indicador que pode estar mascarado pela aquisição de ativos e pelo aumento da necessidade de capital de giro. Principalmente quando se fala de uma empresa em modo de crescimento acelerado. Portanto, o lucro nunca deve ser analisado isoladamente da geração de caixa. Os dois se complementam.

De qualquer forma, gerar lucro e/ou caixa não é bem visto pelo investidor de startups.

Calma! Eu não estou maluco. Acompanhe comigo o raciocínio.

Como vimos no início do artigo, o retorno ao investir em startups deve vir da venda da empresa ou de suas ações, no futuro, por um valor muito maior do que foram adquiridas. Portanto, gerar lucro e/ou caixa, geralmente, significa “deixar sobrar dinheiro”. A pergunta que se faz nesse momento é: se o objetivo final é a venda da empresa, por que esse recurso que “sobrou” não foi investido para crescer mais?

Em outras palavras: gerar lucro pode significar deixar de crescer. E deixar de crescer é o maior pecado que uma startup pode cometer sob o ponto de vista do investidor.

Foco na criação de valor

Sendo assim, o indicador mais atrativo para qualquer investidor é a criação de valor da empresa. Ele pode vir do aumento da receita, do aumento da base de clientes, do desenvolvimento de tecnologia, da compra de outras empresas, de novos contratos, de expansão geográfica e de market share, por exemplo.

Minha recomendação é sempre construir um planejamento de construção de valor a longo prazo. Mesmo começando pequeno, o empreendedor deve ser capaz de mostrar que a visão para os próximos 5 anos é mais sofisticada que aquele protótipo que ele está apresentando e que pode conquistar cada vez mais clientes.

Nunca apresente uma oportunidade muito restrita, sem possibilidades de desdobramentos e inovações constantes. Mesmo ela gerando muito lucro. O investidor quer ver e participar da criação de valor. É mais sustentável, seguro e difícil de copiar.

 

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