Quantas funções tem uma projeção financeira?

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A grande maioria dos empreendedores que eu conheço odeia fazer projeção financeira. Muitos acham inútil, outros falam que isso é coisa de investidor brasileiro, que investidor americano não pede, que é apenas um exercício de futurologia e outros não tem paciência de lidar com os números.

Me desculpem, mas é tudo desculpa para não fazer. Ou por ignorância ou por preguiça, não sei o que é pior.

A projeção financeira é uma das ferramentas mais importantes para um empreendedor ou gestor de empresas. É uma espécie de mapa do tesouro, um guia obrigatório para qualquer pessoa que quer abrir ou administrar um negócio.

Para convence-los disso, eu listo quatorze funções de uma projeção financeira que resolvem problemas que todo empreendedor tem, pelo menos uma vez na vida.

1. Validar o modelo de negócios

Nenhum modelo de negócios, principalmente os mais inovadores, pode ser validado se a sua viabilidade financeira não for testada. Muita gente acha que a conta tem que fechar quase que por milagre e nunca fazem a conta de quanto custa realmente entregar o produto ou o serviço que vão oferecer.

2. Calcular a necessidade de capital

Qualquer jornada deve começar com a avaliação dos recursos necessários. Muitas vezes são usados recursos próprios e outras é preciso captar dinheiro fora de casa, seja através de investimento ou empréstimo. Em qualquer uma das três situações, se você não calcular bem o quanto vai precisar pode se dar muito mal. A falta de recursos na hora errada pode ser fatal para uma empresa.

3. Mostrar o racional de crescimento da empresa

O plano de execução da empresa deve estar traduzido nas projeções financeiras. Contratações, investimentos em marketing e canais de aquisição de clientes, eventos, infraestrutura, prestadores de serviços. A ordem dos desembolsos de cada conta, suas premissas e seu impacto nos resultados da empresa devem ser claros e diretos. Clientes não surgem do nada e pessoas precisam de salários compatíveis com suas funções.

4. Mostrar o potencial de crescimento da empresa

Esse é um dos principais critérios de avaliação de investidores: quanto a empresa pode valer no futuro. Aqui eu já vi de tudo, projeções muito e pouco otimistas. No final das contas a visão de longo prazo tem que estar alinhada com quem você está vendendo a empresa, seja um investidor, um banco, um sócio ou até os colaboradores.

5. Validar a maturidade e a experiência da equipe

Analisando a projeção financeira de uma empresa podemos ter uma ótima ideia da qualidade dos empreendedores. Não pela complexidade do modelo ou quantas fórmulas e abas do excel são utilizadas. Mas a consistência das premissas e a coerência dos resultados. As projeções mostram muito da maturidade do empreendedor em relação a gestão da empresa e sua capacidade de execução. É claro que não dá para terceirizar esse trabalho, a defesa dos números faz parte da avaliação.

6. Calcular o valuation da empresa

Independentemente do método utilizado para cálculo do valuation de uma empresa, 90% dos métodos utiliza alguma informação da projeção financeira da empresa. É possível entrar em acordos de investimento sem entrar nesse mérito, mas usando os números de uma projeção como base o empreendedor chega com muito mais confiança para uma captação de investidores.

7. Negociar investimentos e contratos

Seja uma negociação de investimento, uma venda para um grande cliente, ou uma contratação estratégica, o empreendedor deve entrar na mesa de negociação sabendo seus limites. Saber o quanto ceder é importante para não perder oportunidades ou a cabeça depois de um grande prejuízo.

8. Organizar ações e distribuir recursos

Como eu disse no começo do texto, a projeção é um mapa do tesouro, é nela que está o passo a passo de como, quando e quanto as coisas devem acontecer. Ninguém pode entregar um produto sem comprar a matéria prima antes e ninguém escala suas vendas sem montar um time de vendedores antes.

9. Gerenciar o fluxo de caixa

A falta de dinheiro ou capital de giro é uma das principais razões de fechamento de negócios no Brasil. Isso se deve em grande parte a má gestão de fluxo de caixa. Apesar de ser simples: geração de caixa = entradas – saídas, os empreendedores se perdem com os prazos de pagamento. Gostam de receber adiantado e pagar parcelado, mas se dedicam muito pouco a entender o impacto de receber atrasado e pagar antecipado no fluxo de caixa futuro.

10. Monitorar métricas e o plano de execução

Já diria William Edwards Deming:

“Quem não mede não gerencia”

Não adianta nada ter um plano perfeito e não acompanhar sua execução. As premissas mudarão no meio do caminho, condições ambientais, taxas de conversão, desempenho esperado da equipe, e por aí vai. A única certeza que temos é que os números vão mudar. Se você não planeja, acompanha, avalia e muda o rumo, não existe aprendizado e por isso não existe avanço consistente.

11. Planejar e revisar a estratégia

Independente se você acertou 90% ou 10% da sua projeção em um determinado ano, um fato inquestionável é que você vai ter que fazer uma nova projeção financeira no ano seguinte, e no outro, e no outro… Novas oportunidades significam replanejamento, a piora das condições de mercado se traduzem em novas estratégias. Quem não se adapta, fica pelo caminho.

12. Criar planos de cargos, salários e remunerações variáveis

Está certo que hoje em dia, para as gerações que estão entrando no mercado de trabalho, a compensação financeira tem menos importância do que no passado. Isso não significa que ela não tenha importância. Muito pelo contrário. Se você não mostrar um caminho claro de crescimento para sua equipe, a desmotivação será uma consequência inevitável. Para criar uma estrutura que dê suporte a essa visão de longo prazo, você precisa entender o impacto financeiro dela no fluxo de caixa da sua empresa.

13. Analisar cenários e apoiar a tomada de decisão

É muito comum o empreendedor se deparar com uma encruzilhada. Ou seja, dois caminhos, duas decisões excludentes. E é muito comum também as pessoas tomarem decisões nesses momentos usando apenas a intuição. Mas quando as escolhas são materializadas em números, a decisão é mais fácil, rápida e segura. Se as premissas forem consistentes e a modelagem financeira bem estruturada, ninguém vai questionar a sua decisão no futuro e você ficará com a consciência tranquila.

14. Prestar contas para acionistas e colaboradores

transparência é um dos principais valores da governança corporativa. Se você tem sócios é seu dever informa-los do que está acontecendo na empresa. Trate-os como você gostaria de ser tratado. Quanto aos colaboradores, abra o que você achar que deve abrir para conseguir vender a visão de futuro e manter a motivação da equipe elevada.

E aí, ainda achando que projeção financeira é inútil?

 

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