O erro mais encontrado em projeções financeiras

como fazer a gestão financeira

É fácil imaginar que no trabalho de um gestor de venture capital uma das rotinas mais comuns seja o de analisar a gestão financeira das empresas. Isso é feito muito através de suas projeções financeiras. O que não é tão óbvio assim é o erro mais comum que encontramos nessas projeções: o cálculo da necessidade de investimento.

Gestão financeira para startups

Qualquer investidor, de qualquer categoria e tese de investimento, analisa a empresa como um todo, e não parte dela. Mas, por algum motivo, os empreendedores apresentam suas necessidades de investimento como se fossem projetos isolados. Não fazem a conexão com a receita gerada e esquecem de desembolsos como impostos e infraestrutura.

A gestão financeira de qualquer empresa, inclusive das startups, deve ser administrada com cuidado e o seu controle precisa ser disciplinado, frequente e ter a participações de todos. O pior erro que pode ser cometido é o não cuidado com o fluxo de caixa. Isso muitas vezes significa calcular equivocadamente a sua necessidade de capital.

A seguir descrevo um simples passo-a-passo para não errar na hora desse cálculo.

1º: Faça uma projeção financeira completa

Não se esqueça de incluir tudo, tudo mesmo, na sua projeção. Receita, impostos, custos diretos e indiretos, despesas operacionais fixas e variáveis, despesas financeiras, taxas relacionadas a burocracias diversas, despesas gerais, investimentos, comissões de vendedores e parceiros, taxas de meios de pagamento, provisões para pagamento de bônus, etc. etc. etc.

Analise o modelo de negócios como um todo e peça opinião de várias pessoas. Faça o exercício por cinco anos. Eu sei, eu sei, isso é futurologia. Mas faz parte da nossa avaliação entender onde o empreendedor acha que dá pra chegar com o negócio.

Uma última dica: tente equilibrar agressividade e realidade. Ou seja, pense grande, mas não dê passos maiores que suas pernas. Errar muito para cima ou muito para baixo, nesses dois quesitos, pega muito mal.

2º: Verifique o tamanho do mercado aproveitável

Nenhuma empresa pode ser maior que o mercado na qual está entrando. Ao mesmo tempo, nenhum investidor vai se interessar em investir numa empresa que pretenda, depois de cinco anos, ter uma participação muito irrelevante no mercado. Por isso, é sempre bom comparar a quantidade de clientes que você projeta com a quantidade de empresas ou pessoas do mercado-alvo. Compare também seu faturamento com o “Mercado Aproveitável”, ou em inglês: SAM – Serviceable Addressable Market.

3º: Analise o grau de maturidade da sua equipe

Sim, isso mesmo. A maturidade percebida da equipe conta muito na hora de um investidor acreditar na capacidade de execução das pessoas envolvidas. São elas que farão a projeção acontecer. Quem você acha que consegue captar mais recursos numa mesma condição: dois recém-formados de 23 anos ou dois executivos com ampla experiência na indústria em que estão empreendendo?

Duas coisas podem ajudar muito no aumento da percepção de maturidade da equipe: experiências profissionais anteriores e validações do modelo de negócios. Esses dois fatores ajudam, e muito, na hora de atrair um investidor Portanto, garanta que você tenha isso mapeado antes de começar a captar investimento. Isso vai garantir que você capte o máximo de recursos possível para o seu perfil de empreendedor.

4º: Calcule o fluxo de caixa da empresa

Depois que você fez a projeção financeira completa, cheque a coerência dos números de acordo com o seu mercado-alvo. Garanta que a execução é plausível considerando a sua equipe. Depois disso é a hora de calcular o fluxo de caixa. Não tem muito mistério, é só você somar todas as entradas (receitas) e subtrair todas as saídas (custos, despesas, impostos e investimentos). No final, o perfil desse indicador deve se comportar mais ou menos como o gráfico a baixo, no começo negativo, ou seja, você gasta mais do que arrecada, e depois positivo.

5º: Calcule o fluxo de caixa acumulado

Em seguida, faça uma soma simples dos fluxos de caixa mensais para obter o fluxo de caixa acumulado. Ele deve se comportar como a curva a baixo. A linha do gráfico desce até a empresa começar a receber mais do que gasta, o conhecido ponto de equilíbrio. Depois sobe até cruzar a linha do zero, onde acontece o que chamamos de payback, ou seja, a empresa recuperou todo o prejuízo até aquele momento.

6º: Adicione a necessidade de capital de giro

Esse talvez seja o segundo erro mais comum nas projeções que recebemos: esquecer o capital de giro. Alguns modelos de negócios são mais intensos em capital de giro que outros. Isso acontece quando o prazo de recebimento de clientes é muito mais alongado que o prazo de pagamento de fornecedores. Mas no caso mais simples, de empresas de software como serviço, o que geralmente recomendamos é adicionar no mínimo o equivalente a um mês de despesas. Isso significa dizer que, além da diferença entre as entradas e saídas, a empresa precisa de uma reserva em caixa para emergências e erros de projeção. A nova curva ficaria assim:

7º: Identifique o ponto mais negativo dessa curva

O último passo para não errar na hora do cálculo da necessidade de investimento é identificar o valor mais negativo do fluxo de caixa acumulado. Considerando o capital de giro. No mesmo período que ocorre o ponto de equilíbrio, a necessidade de investimento vai corresponder a pior situação do gráfico.

O valor da sua rodada de investimento deve ser compatível com esse valor. Nem muito acima, nem muito abaixo. Vale ressaltar que, assim como toda a projeção, esse valor também deve ser compatível com a maturidade da equipe e da empresa. Busque sempre a coerência.

Viu?! Não é difícil começar a dar um pouco de profissionalismo a gestão financeira da sua empresa. Basta ter muita atenção e tomar cuidado com os detalhes.

 

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